Educação Popular em Saúde no MST

(Publicado originalmente em 05.12.13)

Educação Popular é sem dúvida nossa maior Mestra. Ela nos mostra que o caminho que nos leva até o interagente é o da troca de saberes, os saberes de cada um. Hoje, tivemos acesso a um Trabalho de Conclusão de Curso com um tema que muito nos inspira: “A influência do Movimento dos Médicos de Pés Descalços na China sobre a Experiência Brasileira do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)”.

A monografia foi apresentada à Escola Nacional de Acupuntura pelos alunos Carlos José Machado Menezes e Rose May Machado da Fonseca Cabral. Eles relataram uma experiência que tiveram durante um acampamento do MST, em Brasília, no ano de 2011, onde puderam trocar saberes e trabalhar junto com os militantes que atuam na área da saúde. Todo o trabalho foi realizado com base na Educação Popular. Seguem, abaixo, alguns trechos inspiradores da monografia:

22-06“Nos momentos em que estávamos lá, presenciamos equipes de seis a oito terapeutas que se revezavam em turnos. Nenhum deles utilizava jaleco ou roupa branca e isso faz parte da cultura do movimento: o terapeuta (mesmo que formado em medicina) é igual a qualquer outro do movimento. O jaleco branco, em nossa cultura, tem uma clara distinção de classes. Alguns militantes que conversamos nos afirmaram ser impossível reconhecer um médico do movimento, a priori, pois eles cumprem com todas as tarefas dos demais militantes e não usam jalecos. A principal justificativa alopática para o uso desta vestimenta é primeiramente a de diferenciar o profissional de saúde. Um segundo argumento se relaciona com a assepsia, tão cara à ideologia burguesa, industrial e médico-hospitalar. Pois os médicos ou técnicos em saúde que encontramos também tinham os pés ou mesmo as roupas “sujas” de terra. Mas terra para um movimento dos sem terra pode ser algo sujo?“

“O MST tem hoje em seu centro de formação, o Iterra, no Rio Grande do Sul, dentre outros, um curso de técnicos em saúde. (…) Depois de cada módulo, o aluno volta para a sua comunidade e coloca em prática aquilo que aprendeu. A perspectiva do curso é de formar mais que agentes de saúde, mas sim mobilizadores e educadores populares, fazendo com que seu trabalho parta das reais necessidades da comunidade e tenha as possíveis saídas para cada problemas discutido e executado pela própria comunidade.“

“Na página 46 do livro ‘Como se faz Medicina Popular’, de Jorge Moreira Rocha, o autor tece uma análise de como seria uma medicina verdadeiramente popular, estabelecida sobre um eixo horizontal entre o terapeuta e a população: ‘Para entender uma prática popular requer-se um mergulho em sua cultura. Não sendo assim, passa-se ao largo, sem nada entender, sem poder apreciar, senão superficialmente’.”

“É preciso estar em uma posição de ensinar e aprender. Servir e ser servido de medicina e de todos os aspectos da cultura local. Estar numa clara posição de troca de saberes e não numa posição elitista de servir ao povo.”

* * *

Que caminhemos a cada dia aprendendo com essa roda viva que é a vida de cada um de nós, cada história, cada realidade. A Educação Popular em Saúde nos torna mais que Terapeutas, nos torna, sem dúvida, mais humanos, mais aprendizes e mais descalços.

Para ser professor do povo é preciso, antes, ser aluno do povo.”
Mao Tsé Tung

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