Educação Popular em Saúde, nossa mestra

(Publicado originalmente em 17.09.12)

Quando há mais ou menos um ano, num dia especial, o Eu Livre bateu na porta de nossa mente e coração. Era verde a cor desse lampejo inicial! Era verde e vinha com a Educação Popular. Não poderia ter sido diferente, já que a ideia, desde que o Eu Livre ainda se configurava como embrião, era poder compartilhar com a comunidade as sementes dos nossos conhecimentos para, juntos, vermos florir o desenvolver de cada um, assim como um arbusto vai tomando conta do quintal.

A Educação Popular, assim como em várias comunidades e aldeias de índígenas do nosso país, ao designar o “poder da fala” a alguém, tem como princípio que o “chefe/educador” seja digno de pronunciar palavras das quais todos pensem, conheçam e compreendam. Então, aqui e lá, a fala do “chefe/educador” só é da sua vontade porque, antes, é a vontade de todos. Ele não é o “senhor da palavra”, ele é o sinal, a chave, o facilitador. Aqui, o aprender não pode ser um acúmulo de conhecimentos mecanizados, prontos. O aprender deve ser uma atividade inerente a tudo o que é vivo e orgânico (como o corpo), e seu resultado é a totalização do ser de cada pessoa, em cada cultura. O educador, por sua vez, tem sua missão: aprender a saber através de criar saberes para aprender. E isso, junto com a roda que está aprendendo. É um círculo, uma teia, uma ciranda dialógica, recíproca. Nada mais compatível com o nosso tema de trabalho: Saúde.

CIRANDA 2

Se trabalhamos baseados no holismo, onde cada um é obra de tudo e responsável por seus processos integrados de saúde, é a Educação Popular que nos dá as ferramentas e toca a música da nossa ciranda, ao permitir que o saber trocado circule livremente, seja flexível, esteja disponível para o diálogo, seja moldado, investigado. O “ensinar-com-o-outro” nos dá a oportunidade de cada pessoa envolvida ser o sujeito, o agente, o ator e o autor, pleno de sua própria integração de conhecimento. É através do ato de “Aprender-e-Ensinar” (sim, deveriam ser escritas juntas!), que despertamos uns nos outros os saberes mais profundos e a consciência de INTEGRAÇÃO de cada um consigo mesmo e de cada um com o todo. Despertamos a autonomia, o empoderamento.

Esse trecho de Carneiro Leão espelha bem a nossa ideia: “…Pois aprender não é acumular, como crescer não é aumentar de tamanho. Só aprende quem sabe, no que compreende, o sabor do que já possui, a riqueza misteriosa de sua identidade. Acontece realmente um aprender quando a compreensão do que se tem for e vier a ser sempre um dar-se a si mesmo a sua própria identidade.”

Trabalhar com a Educação Popular na Saúde tem sido um mar de aprendizados, um constante “ir-ao-encontro-de”. Nesse mar, levamos alguma coisa nossa para receber alguma coisa dada por outro. Quando trazemos os conhecimentos das Medicinas Naturais, nas vivências, palestras e oficinas, estamos dispostos a criar condições que abram as portas em cada um para o “auto-perceber”. Entramos na roda com o intuito de todo mundo se mostrar, se enxergar, se investigar e ver dentro de si seu Terapeuta Interior, ver em sua cozinha e na feira a farmácia necessária e em seu corpo o caldeirão fervendo, pronto para receber os ingredientes da cura. Junto com esse “investigar-e-descobrir”, podemos compartilhar esse saber integrado, que é a alquimia dos conhecimentos oferecidos por nós, educadores, e os conhecimentos individuais de cada educando. Essa é a porção mágica.

Educação Popular em Saúde é escancarar-se ao construir saberes, decantar ideias e aprender sempre. Ser sempre aluno. É se observar, trocar, tecer e ser a teia. É um “des-aprender”, um “re-aprender”. É o estudo das ciências da vida. Não há o absoluto, nem a Medicina ou Terapia mais correta… há o investigar, há o experimento. Há você, mestre de si mesmo. Somos quem ensinamos a pescar, somos o peixe e o pescador.
o Eu Livre – Educação Popular em Saúde é caminhante e discípulo do “Aprender-e-Ensinar”. É um grupo de Terapeutas/Educadores e Educandos nessa roda da vida, que está sempre aberta, pronta para receber o ingrediente principal: o Interagente.

“Aprender é estar dentro de um tempo interativo de diálogo com o outro. Aprender é abrir-se a um outro para criar com ele a experiência objetivamente solidária (sempre interativa), subjetivamente pessoal (sempre um gesto único, interior) de descobrir junto e integrar sozinho o milagre do saber. E educar é saber construir o momento do diálogo dentro do qual educador e educando criam, um-com-o-outro, um-através-do-outro, um saber de construção comum e, ao mesmo tempo, uma descoberta profundamente solitária, imensamente pessoal. Eis o fio do seu mistério. “

Revista de Educação Popular – Jan/Dez 2008

Gratidão aos mestres do caminho e a todos os interagentes!

— Por Mariana Almeida

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